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Médico que cuidou de Irmã Dulce por mais de 15 anos relembra ‘teimosia’ e interferência da freira na política econômica do país

Por Adriana Oliveira, TV Bahia

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O pneumologista Almério Machado cuidou de Irmã Dulce em Salvador por mais de 15 anos, entre o final da década de 1980 e o início de 1990, quando a freira morreu. Ao longo do tempo que passou com a futura santa, o médico, que hoje tem 85 anos, esteve muito próximo da rotina dela.

Com o passar dos anos e os problemas respiratórios cada vez mais graves, os encontros entre eles ficaram mais frequentes. A paciente se tornou amiga do médico, que se tornou voluntário nas obras sociais junto com o filho, também médico. Em meio às lembranças, Almério ressalta a teimosia e a força de vontade de Irmã Dulce.

“Ela era uma mulher frágil no ponto de vista físico, mas do ponto de vista mental, uma mulher muito forte. Fora do comum”, disse.

Um momento marcante para o médico é quando a freira interferiu na política econômica do país, nos anos 80, quando o então presidente Fernando Collor de Mello instaurou um plano econômico e contas foram bloqueadas. Na época, a freira conversou com a então ministra da Economia Zélia Cardoso de Mello por telefone e conseguiu a liberação da conta dela.

“Irmã Dulce ficou preocupadíssima, porque ela não tinha como, porque ela vivia naquela ocasião pedindo auxílio a um e a outro. Ela ligou para a casa da ministra Zélia Cardoso de Mello e, quando ela disse o que era, Zélia Cardoso de Mello disse: ‘Vou resolver seu problema. Pode ficar tranquila’. Irmã Dulce ficou relutante, é claro. Quando chegou de noite, o Jornal Nacional, o Cid Moreira, deu a primeira notícia do jornal, dizendo que a Zélia Cardoso de Mello tinha desbloqueado os depósitos de Irmã Dulce”.

Além dessas histórias, o médico guarda na memória outros momentos que marcam a persistência de Irmã Dulce. Uma paciente teimosa que, mesmo com saúde frágil, desobedecia a orientação médica e viajava pra ver as crianças do orfanato que mantinha na cidade Simões Filho, na região metropolitana de Salvador.

Agora, com a canonização, o médico esbanja orgulho porque irá se tornar o médico que cuidou de uma santa.

“É o máximo. Eu agora tenho um título que ninguém aqui no Brasil tem. Inédito. Primeira santa do Brasil e médico só teve eu”.

O pneumologista está na contagem regressiva pra participar da cerimônia, que será realizada no Vaticano no dia 13 de outubro. “Tenho até medo, porque meu coração não é muito bom não”, conta.

Por conta da idade, o médico conta que enfrentou dificuldades para comprar a passagem.

“[Disse] que eu tinha 85 anos, não poderia viajar, que era muito perigoso, que não se responsabilizaria de modo nenhum. E disse assim no dia seguinte: ‘Vá buscar seu dinheiro’. Aí fui para outra agência de viagem e felizmente consegui. No dia 10, estou partindo daqui para Roma”.

Fé e ciência

As obras sacras reunidas na casa do médico poderiam até indicar um homem religioso, ainda mais depois de um contato tão próximo com irmã Dulce, mas na verdade são parte de uma coleção de arte. O médico diz não ter religião. É um homem da ciência. Mas quando chegou a ficar um mês internado, há alguns anos, Maria Rita, sobrinha de Irmã Dulce, entregou um relicário com um objeto da freira para o médico.

“Acho que foi uma grande força pra mim. Que aquilo poderia me ajudar também”.

Além disso, o pneumologista, que ainda atua na área, tem um lenço que marca uma lembrança da beatificação de Irmã Dulce, ocorrida em 2010. O lenço fica com ele o tempo todo, como símbolo de uma inversão de papéis. É ela hoje quem cuida do doutor.

“Passei a usar para ter força pra tudo”, conta.

Canonização

A canonização de Irmã Dulce será realizada no dia 13 de outubro, em Roma. Regida pelo Papa Francisco, a cerimônia ocorre durante o Sínodo da Amazônia. Além de Irmã Dulce, no mesmo dia serão canonizados outros quatro beatos.

Durante a cerimônia, o Papa Francisco será presenteado com uma parte do corpo da freira. Os restos mortais serão entregues em um relicário acompanhado de uma pedra ametista, que terá formato de coração.

Irmã Dulce teve a canonização marcada após o Vaticano reconhecer dois milagres atribuídos a ela. O primeiro foi reconhecido em outubro de 2010, quando ela foi beatificada. O segundo foi reconhecido em maio deste ano.

Os dois casos estão entre os três que eram analisados no Vaticano. Os relatos de milagre foram enviados pelas Obras Sociais Irmã Dulce, em 2014, após avaliação de profissionais da própria instituição, reunindo mais de 10 mil casos na sede da instituição, em Salvador.

A canonização da freira será a terceira mais rápida da história (27 anos após seu falecimento), atrás apenas da santificação de Madre Teresa de Calcutá (19 anos após o falecimento da religiosa) e do Papa João Paulo II (9 anos após sua morte).

Fonte: G1.com

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